Depois do impeachment, a incerteza

De acordo com pesquisa feita por As Vozes e os Fatos, medidas impopulares do governo Temer causam indefinição sobre cenário econômico

Por Alanna Anjos, Laíz Sousa, Paulo Octavio e Ygor Piva

No dia 2 de dezembro, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aprovou um pedido de impeachment contra Dilma Rousseff. Esse foi o início de um processo longo que afastou a presidente, mexeu com a aprovação do Congresso Nacional e mudou as projeções da economia brasileira.

Assim que foi efetivado, Michel Temer prometeu manter programas sociais e implantar reformas na Previdência e nas leis trabalhistas. Essas medidas geram dúvidas sobre como serão aplicadas na prática, se realmente ajudarão o trabalhador e se vão gerar novos empregos.

Além disso, a baixa popularidade do novo presidente — apenas 36% considera o governo regular, conforme registrado pelo Ibope em julho — bem como o desconhecimento da população acerca do seu plano de governo e o temperamento do Congresso podem comprometer a adoção de medidas para salvar a economia.

Histórico

A LRF (Lei da Responsabilidade Fiscal) entrou em vigor em maio de 2000. Segundo o site do Tesouro Nacional, essa lei regula os gastos públicos de cada ente federativo brasileiro (estados, municípios e distritos).

Com o propósito de entregar contas saudáveis para os sucessores de seus mandatos, os gestores não poderiam exceder os limites de gastos estabelecidos. Em 2000, o PT (Partido dos Trabalhadores) votou contra a LRF e foi justamente o não cumprimento dessa lei que os senadores apontaram como uma das principais causas do impeachment da ex-presidente Dilma. O não contingenciamento de despesas do antigo governo juntamente com os casos da Operação Lava Jato propiciaram o cenário perfeito para que a oposição tirasse Dilma do poder. Mas a crise econômica já estava instaurada antes da reeleição da ex-presidente.

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Reprodução

Após a crise de 2008, o governo reduziu algumas taxas para estimular o consumo e o investimento novamente. Mas essas medidas fizeram a população se endividar e a capacidade de renda não foi suficiente para cobrir os financiamentos. Além disso, o preço do petróleo foi congelado por muito tempo e, quando reajustado, a inflação estourou.

Números do governo Dilma

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Reprodução (Nexo Jornal)

A ex-presidente Dilma obteve um bom desempenho econômico em seu primeiro mandato. Após a reeleição, teve início uma instabilidade política devido à piora da economia, com alta da inflação, aumento dos juros e cortes de investimentos públicos.

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Reprodução (Nexo Jornal)

A taxa Selic é o índice dos juros pagos pelo governo em seus empréstimos. Ela também serve como mecanismo de controle do fluxo de moeda. Quando essa taxa sofre aumento, a economia desacelera, uma vez que as pessoas consomem menos.

“Com a crise, tivemos que cortar gastos supérfluos como TV a cabo e academia. Também reduzimos idas a shoppings, restaurantes e ao mercado”, contou a professora Lazara Araujo, 58.

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Reprodução (Nexo Jornal)

No ano de 2015, o país enfrentou o maior índice de inflação dos últimos 13 anos, conforme demonstrado no gráfico acima. A queda do real e o aumento do preço do petróleo, que foi controlado durante o primeiro mandato da ex-presidente Dilma, colaboraram para a alta da inflação. A desvalorização da moeda é sentida no bolso, porque os preços nos comércios crescem. “Foi preciso ficar mais atento aos valores dos produtos e evitar gastos desnecessários”, afirmou o estudante Pedro Souza, 21.

A economia é um ciclo e a combinação dos preços altos e o desemprego culminaram na insatisfação popular com o governo: de acordo com ultima pesquisa realizada pelo Ibope, em março, o governo Dilma tinha 10% de aprovação.

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Divulgação

Mais neoliberal

Agora, Temer estabeleceu um novo plano de governo e a ideia é ajustar várias áreas para conter os problemas econômicos. Entre as propostas, estão mudanças na Previdência Social e a reforma trabalhista. “O que mais interessa é a legislação trabalhista porque atende a todo um setor empresarial. A linha de conduta do novo governo é bem diferente do antigo, seguindo uma linha mais neoliberal”, explicou Claudio Sá, cientista social e político.

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Reprodução

O presidente propôs também auditoria nos programas sociais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e Pronatec. Segundo o Prof. Dr. e economista Eduardo Luiz Machado da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), os programas sociais “não pesam muito no orçamento público, mas devem ser mais bem geridos para evitar fraudes e atingir de fato os mais necessitados”. A parte do PIB destinada a políticas sociais é modesta e, de acordo com Eduardo, não causa impacto de grande magnitude no orçamento da União. O Bolsa Família, por exemplo, é cerca de 0,4% do PIB, segundo pesquisa realizada em 2013 pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

Apesar da melhoria na balança comercial e a retomada da indústria, 74,2% de 89 pessoas entrevistadas pelo blog As Vozes e os Fatos sentem-se inseguras e pessimistas em relação à economia pós-impeachment.

Claudio Sá cita Delfim Netto, economista brasileiro, ao afirmar que “economia é perspectiva e as pessoas agem de acordo com o que acreditam que é a realidade”. E reforça: “Michel Temer inspira segurança para o empresariado. Com isso, as pessoas começam a achar que o Brasil vai melhorar”.

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