Inflação: o gigante a ser batido

Histórico mostra que o Brasil conseguiu superar os excessos da inflação; oscilação recente, porém, preocupa os brasileiros

por Alanna Anjos, Laíz Sousa, Paulo Octavio e Ygor Piva

O consumidor comum pode não entender de economia, mas com certeza entende os efeitos da inflação. Mas poucos sabem que o aumento acelerado e generalizado de preços acontece de acordo com oferta e demanda: quanto mais dinheiro em circulação, menos valor tem a moeda. Por isso não existe uma causa exata para a inflação.

Isso tudo gera um efeito dominó: inflação alta provoca aumento nos juros – como forma de conter a alta – que serve como base para obtenção de crédito e circulação de dinheiro; o desequilíbrio impede que empresas obtenham financiamento, gera desemprego e consequentemente, crise.

No dia 7 de outubro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que a inflação nacional desacelerou e chegou a 0,08% em setembro – menor índice para o mês desde 1998, quando havia caído para 0,22%. No mês anterior, o Índice de Preços ao Consumidor – Amplo (IPCA) havia chegado a 0,44%.

A queda na inflação acarretou em recuo nos preços de diversos produtos, como a batata inglesa (-19,24%), o leite longa vida (-7,89%) e o feijão carioca (-4,61%); no entanto, houve alta no preço do leite condensado (8,26%), no leite em pó (5,64%) e na farinha de mandioca (3,40%).

Por ter o efeito mais perceptível, essa ligeira queda dá a impressão de que o pior da crise atual já passou e a economia deve estabilizar. Mesmo assim, a economia brasileira ainda está muito longe de repetir o padrão das crises dos anos 80 e 90.

Trauma de uma geração

Na década de 80, com a redemocratização, a população passou a entender com mais transparência a situação da inflação no país. O cenário era devastador; os produtos chegavam a dobrar de preço de um mês para o outro. O então presidente José Sarney lançou, em fevereiro de 1986, o Plano Cruzado, com o objetivo de diminuir a inflação (que chegava a 80% ao mês). Este plano estabelecia a substituição da moeda vigente, o cruzeiro, pelo cruzado e o congelamento de preços. Os produtos tinham preços fixos e as tabelas eram publicadas nos jornais e supermercados, vigiadas pelos “fiscais do Sarney”, que verificavam se os estabelecimentos vendiam os produtos pelo mesmo preço que o governo havia estabelecido. “Minha madrasta estava no mercado e viu um funcionário remarcando preços das mercadorias, reuniu as mulheres presentes e fizeram uma manifestação na frente do comércio. O gerente foi detido”, conta a bancária Roselei Xavier Correa, 48.

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Button utilizado por “fiscais do Sarney”, que fiscalizavam os preços dos produtos nos mercados. Reprodução (Antonio Lúcio/Estadão Conteúdo)

O plano se mostrou um enorme fiasco, pois o tabelamento de preços diminuiu drasticamente a rentabilidade dos produtores, o que causou desabastecimento. Apesar do fracasso do Cruzado, o governo insistiu no congelamento de preços como carro-chefe dos planos econômicos que o sucederam – Bresser, em 1987 e Verão, em 1989 –, mas a inflação só fazia subir, chegando a 50% ao mês.

O governo Collor, iniciado em 1990, não conseguiu resolver o problema; a medida de confisco da poupança foi vista como um equívoco tremendo, afetando drasticamente sua popularidade e piorando a situação econômica do país. Collor saiu da presidência no final de 1992 após sofrer um impeachment, deixando de legado 2.477% de inflação.

Seu sucessor, Itamar Franco, trocou de ministro da Fazenda quatro vezes. O último deles, Fernando Henrique Cardoso, reuniu uma variedade de economistas do Rio de Janeiro para elaborar um plano econômico que devolvesse o poder de compra às pessoas e combatesse, de uma vez por todas, a inflação.

O Plano Real tinha como base o tripé macroeconômico: câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e controle inflacionário, com metas a serem estabelecidas e cumpridas. Esse modelo conseguiu conter a inflação (que caiu a 12% em 2002, último ano de governo de Fernando Henrique) e gerar estabilidade econômica, que foi abalada com a crise atual.

O mal da inflação do bem

Para não sentir os efeitos da crise internacional em 2008, o governo estimulou o crédito, financiamentos, reduziu os impostos da chamada “linha branca” (eletrodomésticos como fogão, micro-ondas e geladeira) e abaixou a taxa de juros. Com muito dinheiro em circulação, a moeda perdeu o valor e muitos consumidores acumularam dívidas. Com essa estratégia, Dilma apostou na “inflação do bem” para garantir o crescimento.

Mudança no programa

Logo após as eleições presidenciais de 2014, a então presidente Dilma Rousseff recebeu o desafio de vencer uma das maiores crises econômicas da história do Brasil, com um cenário econômico que já vinha se desenhando durante aquele ano, onde Dilma foi acusada de esconder que haveria um agravamento da crise para ganhar a eleição. Para inibir os efeitos da instabilidade econômica, Dilma seguiu os passos do programa de governo do seu opositor, Aécio Neves, nomeando para a Fazenda o banqueiro Joaquim Levy, de tendência mais neoliberal, aumentando a taxa de juros, cortando investimentos sociais e buscando apoio do Congresso Nacional para reformas como a da Previdência.

Economistas acreditam que a interferência do Estado nos anos anteriores gerou efeitos negativos. Os sucessivos problemas na economia e os esquemas de corrupção causaram o governo Dilma a perder a popularidade e se tornar mais frágil e sem apoio, o que, após diversas denúncias de crime de responsabilidade, acarretou em um processo de impeachment.

Incertezas

Como forma de conter a crise, o governo de Michel Temer traz reformas semelhantes às que sua antecessora propôs ao poder Legislativo sem sucesso, como a reforma da Previdência e a reforma do ensino médio. Além disso, Temer elaborou a Proposta de Emenda à Constituição 241, que limita gastos públicos nas mais variadas áreas por 20 anos, mas que poderá ser revista a partir do quinto ano de vigência.

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